DESPOTISMO DIRECIONISTA
“É uma forma de autoritarismo que tenta dirigir tudo e todos, que quebra os relacionamentos e a comunhão, por ignorar que as pessoas são diferentes e têm modos de pensar e agir distintos.”
O Despotismo é uma forma de governo em que o poder se encontra nas mãos de apenas um governante. Os súditos são tratados como escravos. Diferentemente da ditadura ou da tirania, este não depende de o governante ter condições de se sobrepor ao povo, mas sim de o povo não ter condições de se expressar e auto-governar, deixando o poder nas mãos de apenas um, por medo e/ou por não saber o que fazer. No Despotismo apenas um só governa, sem leis e sem regras, arrebata tudo sob a sua vontade e seu capricho.
Déspota é uma qualificação dada à pessoa que governa de forma arbitrária ou opressora. Muitas vezes atingem o poder pelas vias democráticas ou movimentos populares, mas com o tempo busca enfraquecer as demais instituições, reger leis de interesse próprio e adquirir autoridade absoluta. É o mesmo que ditador, ou seja, o indivíduo que exerce todo o poder político sozinho ou com um pequeno grupo de pessoas sufocando seus opositores.
No contexto familiar o pai pode ser um déspota, a mãe pode ser uma déspota e os filhos também podem ser déspotas. Neste caso a forma de “governar” a casa, a família é feita com um oprimindo o outro. Ás vezes este despotismo é disfarçado, outras é bastante exacerbado, mas sempre que um désposta “governa” há tristeza e medo naqueles que estão sob seus domínios. A família é composta por pessoas diferentes, com sonhos e aspirações diferentes. Não há como experimentar o lar como um lugar de comunhão sem entender que lidamos com pessoas que são diferentes de nós. Quem tem o segundo filho não demora a perceber que eles são diferentes, reagem de modo diferente aos mesmos estímulos. É por isso que Paulo ensina (em 1 Coríntios 13.4) que quem ama é paciente e bondoso. Sem essas características não é possível viver o amor.
Cada um enxerga a vida com um colorido diferente. Lá em casa é meio complicado falar em “ver o colorido do mundo”. O meu pai é daltônico, e um pouquinho daquilo que estava nos genes do meu pai passou para mim. As cores que eu enxergo são um pouquinho diferentes daquelas que todo mundo enxerga. Isso dá um pouco de trabalho. Às vezes, por exemplo, minha mulher diz que eu devia usar o terno verde, e para mim ele é bege. Mas a vida é assim: todos nós enxergamos o mundo com matizes diferentes. Se não formos capazes de respeitar os sentimentos, sonhos e decisões das pessoas que são significativas para nós, nunca existirá comunhão dentro da casa.
Nós precisamos ensinar, orientar, ajudar, construir valores, sem sufocar ou gerar amargura no coração. É importante perceber os sentimentos do outro. Alguns trechos da Palavra de Deus que nos ajudam a entender isso são bem claros, como este de Colossenses 3:19:
“Maridos, amai vossas esposas e não as trateis com amargura.”
Em 1 Pedro 3.7, uma mensagem dirigida aos homens, mas que vale para toda a família:
“Maridos, vós, igualmente, vivei a vida comum do lar com discernimento; e, tendo consideração para com a vossa mulher como parte mais frágil, tratai-a com dignidade porque sois, juntamente, herdeiros da mesma graça de vida, para que não se interrompam as vossas orações.”
Esse trecho é sério. O que o Senhor está ensinando é que, para haver comunhão na casa, não adianta somente dar ordens. É preciso que exista discernimento. Nós precisamos discernir os sentimentos que estão guardados no coração. Nem tudo o que falamos reflete realmente o que sentimos, sabia?
Um exemplo prático para demonstrar isso. Quando chega o Dia das Mães, o aniversário da esposa ou o de casamento, ela diz: “não precisa comprar nada não, eu não estou precisando de nada”. Não caia nessa, é uma das maiores mentiras que existem na face da Terra! O que ela está falando não tem nada a ver com o que ela realmente espera. Nos relacionamentos, precisamos discernir os sentimentos expressos em palavras daqueles que são reais.
O QUE AS PALAVRAS SIGNIFICAM
Nem sempre é fácil discernir o que as pessoas estão dizendo. Cada situação é diferente, e dependendo do contexto as mesmas palavras podem ter significados completamente distintos. A Palavra de Deus diz que, se não conseguimos ter o discernimento necessário para obter a comunhão da família, precisamos que Deus nos ajude a alcançá-lo. Às vezes imaginamos que, porque estamos vivendo juntos há tantos anos, sabemos tudo a respeito do marido, da esposa, das crianças. Isso quase sempre é um grande engano – precisamos entender o que vai pelo coração do outro, e isso só é possível com a ajuda de Deus.
Há pessoas que raciocinam e tomam suas decisões de uma forma que se costuma chamar de “convergente”. Elas procuram meios de solucionar os problemas da vida com base em experiências de outras pessoas – assim, os caminhos delas convergem para um ponto comum. Mas há também, muitas vezes na mesma família, pessoas que escolhem suas rotas de forma divergente – ou seja, vão querer sempre descobrir um caminho novo, que ninguém ainda descobriu.
Nem sempre é fácil compreender e amar as escolhas de um filho divergente. Por isso o Senhor precisa nos dar graça para entender a maneira como cada indivíduo se expressa. Se as diferenças fossem um problema, Deus não nos teria feito tão diferentes uns dos outros.
A ciência já mostrou que não existe uma impressão digital igual, nem mesmo um fio de cabelo igual ao outro. Deus nos fez assim. Nestas coisas há beleza, uma beleza divina, mas precisamos investir tempo para conhecê-la, senão não haverá comunhão.
O INCIDENTE DO PNEU MURCHO
Pedro nos ensina que eu preciso ter consideração pelos outros, mais do que uma voz de comando. Esse é um instrumento muito mais forte e contundente do que qualquer outro. Meu pai tinha uma qualidade preciosa que me ajudou a crescer muito. Quando tínhamos que levar uma bronca, uma repreensão ou até uma surra, havia tanta consideração no seu jeito de fazer que ficávamos constrangidos. Papai sentava e não tinha problema com o tempo, e ele começava a conversar sobre o que tínhamos feito. Ele nos confrontava, a mim e aos meus irmãos, e tínhamos que explicar as razões do nosso comportamento. Ele ia discutindo, e se nós provássemos que tínhamos razão, ficava tudo bem. Se não, uma hora nós acabávamos dizendo: “Papai, vou buscar o chinelo; me bata, por favor”.
Eu fui buscar o chinelo algumas vezes. Era uma situação muito séria para nós por causa da consideração com que ele nos tratava. Teve uma vez que eu esvaziei o pneu do carro de um vizinho – uma traquinagem de moleque. O vizinho veio reclamar, o meu pai ouviu, mas não deixou que ele falasse comigo. Ouvi tudo por trás da porta e, depois que ele saiu, meu pai sentou-se comigo para conversar por quase duas horas. Ele só perguntava por que eu tinha feito aquilo, e eu dizia: “Não sei, papai, me deu vontade”. Aí ele foi me explicando. Contou tudo o que tinha acontecido, coisas que eu não sabia. Bem naquela madrugada a esposa daquele senhor estava para ganhar nenê, e ele não conseguiu levá-la à maternidade porque o pneu estava murcho. Nunca mais esqueci essa história, e no final papai me disse assim: “Você vai se desculpar com essa família”.
Eu queria levar uma surra, mas ele disse não. “Aqui está o endereço”, ele falou, “eles estão esperando você agora.” Eram 10 horas da noite, eu argumentei que era tarde, mas ele não cedeu, disse que eles estavam me esperando. “Você vai comigo?”, eu perguntei. Ele disse que não, quem devia desculpas era eu. Eu queria sumir. Mas aquilo fez muito bem para a minha alma, porque eu aprendi a ser considerado como gente, a entender os meus erros e assumir a responsabilidade por eles.
O despotismo direcionista é voltado para atingir o outro. Muitos o chamariam de assédio moral, intelectual, etc., mas ainda assédio. As atitudes são tão arbitrárias que atingem o outro em seu emocional, deixando-o fragilizado e, muitas vezes, aterrorizado e incapaz de agir. Conheço mulheres que estremecem cada vez que o esposo ergue a voz. Suas críticas são sempre mordazes e desestruturam a rotina doméstica. Mulheres que questionam cada atitude do marido e os levam à insegurança. Filhos tímidos, introvertidos, sem coragem de expressar-se porque foram tolhidos em sua criatividade. O despotismo não traz submissão, mas acarreta ressentimentos e mágoas. Precisa ser tratado, pois o déspota é um verdadeiro ditador.
DITADORES? AQUI, NÃO!
Quando podemos discernir o “jeitão” dos Outros e temos consideração com eles, três coisas acontecem. Somos capazes de:
• entender o que está acontecendo,
• assumir responsabilidades, e
• aprender a ter comunhão com as pessoas.
Precisamos aprender a crescer, amadurecer, descobrir nosso papel dentro da família. Precisamos descobrir qual é o nosso papel dentro do Reino de Deus, e essa não é uma missão que se cumpre só dando ordens. Há momentos para usar a autoridade, mas também precisamos ministrar ao coração da família. Quando isso acontece, há comunhão no lar. Mas como ministrar ao coração promovendo comunhão? Amando, tendo paciência, determinação e fé. O amor lança fora todo o medo. O amor promove comunhão, inspira respeito.
O lar não pode ser lugar de ditadores, mas de indivíduos sensíveis que se unem e superam juntos as dificuldades. Quer entender o que é família? Quando você estiver enfrentando uma luta, uma dificuldade de qualquer tipo, e encontrar pais, filhos e irmãos cooperando uns com os outros, você vai entender o que é família de verdade. Tem defeito? Tem! Toda família tem, o importante é tentar se superar, aprender e buscar a graça de Deus. Costuma-se dizer que: “na família quando um se corta, todos sangram”. È mais ou menos isso. Na família, quando necessário, as diferenças são deixadas de lado, os ressentimentos são abandonados e todos se unem para ajudar, para socorrer. O ideal seria que este sentimento de apoio mútuo perdurasse em todas as situações, mas aí seria a perfeição e essa não existe.
O legalismo nunca produziu um lar saudável. Mas o que vem a ser legalismo? È um termo usado pelos evangélicos para descrever uma posição doutrinária que enfatiza um sistema de regras e regulamentos para alcançar a salvação e o crescimento espiritual. Desta forma é possível entender que um chefe de família que é legalista espera que sua esposa e filhos andem “por sua cartilha”, ou seja, de acordo com as regras que ele acha corretas. Os legalistas esperam que as regras sejam seguidas ao pé da letra. Conheço um homem que, caso um dos membros de sua família esteja doente e deixe de comparecer a um culto, ele ministra o culto com leitura e explicação da palavra, cânticos, orações e até ofertas em sua casa. Mesmo que a família não esteja interessada, nem disposta, ele para tudo e durante o horário de culto em sua igreja realiza um culto em sua casa. O verdadeiro propósito da lei, principalmente da lei de Moisés no Velho Testamento é ser um tutor para nos levar a Jesus Cristo.
Para não cair no erro do legalismo, podemos colocar em prática o que está escrito em João 1:17: “Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo”. Jesus nos libertou, não devemos nos prender a grilhões dos déspotas de nossa família.
Às vezes o que encontramos são marcas de agressões físicas ou psicológicas. Por isso mesmo a família tem que ser mais do que um lugar de ordens sendo ditadas. Tem que ser o lugar onde se investe na vida do outro. Este investimento deve ser sadio, deve promover vida, promover cura e restauração. O lar precisa ser um lugar de paz, de tolerância, de aprendizado.
Deus te abençoe!
Pr. Harley Carvalho



















